De vez em quando me percebo
pensando na vida – e qual idoso não faz isso? Neste final de semana, em meu
caderninho de anotações e ideias, escrevi:
Dificilmente encontraremos alguém que esteja plenamente satisfeito com
o modo como vive. Neste exato momento, inúmeras pessoas em todo o mundo se
questionam sobre os valores que nos impuseram como sendo verdadeiros e, às
vezes, únicos para garantir a felicidade das pessoas – e dos idosos - na
sociedade em que vivemos.
Buscava, com essas considerações,
iniciar a postagem a ser publicada esta semana. Relia o livro
Ter ou Ser do filósofo Erich Fromm onde há anos eu grifara a frase: “Tem-se a impressão de que a própria essência de ser é ter, de que se alguém nada tem, não é”. Em resumo, um conflito entre o Ter e o Ser.
Ter ou Ser do filósofo Erich Fromm onde há anos eu grifara a frase: “Tem-se a impressão de que a própria essência de ser é ter, de que se alguém nada tem, não é”. Em resumo, um conflito entre o Ter e o Ser.
Um idoso aposentado, talvez com
rendas reduzidas, pode se angustiar por não ter todo o dinheiro e que
sonhava na juventude; se sente fracassado por associar sua felicidade aos bens que
não acumulou na juventude para usufruir na velhice.
Então meu celular começou a
vibrar; uma mensagem chegara e aguardava ser lida. Uma dessas com cara de
autoajuda que medram na Internet. Copiava um artigo de famosa artista escrito para
uma revista orientada a um público de alta renda, com todo o fetiche da posse
de bens de luxo, o “ter” como finalidade da vida.
Entretanto o texto me
surpreendeu: a autora alertava este seu público – consumidor de luxo – que a
felicidade estava não no que se possui, mas naquilo que se é. Vale a pena
conhecer um pouco das afirmações em alguns trechos que selecionei.
O LUXO
MUDOU
O novo luxo é ter saúde, liberdade, tempo.
Ter espaço nesse planeta atulhado, ter hortas orgânicas, abelhas, animais
livres, água limpa, rios e mares limpos, matas nativas e florestas preservadas,
biomas naturais. Ter tempo de flanar, pensar, se dedicar a observar a beleza
das coisas, de criar beleza nas coisas, de descobrir o mundo. Tempo de dançar sozinho,
olhar demoradamente um pôr de sol. Cuidar dos bichos abandonados e ter uns
bichinhos pra chamar de seus. Tempo de cuidar de jardim e poder plantar muitas
árvores. Tomar um café no fim de tarde e ler um bom livro. Tempo de
conhecer, descobrir e amar as pessoas. De poder fazer amor com todo o tempo do
mundo. De acordar de bom humor e
acreditar que é possível, é sempre possível e que estamos aqui para presenciar
pequenos e grandes milagres. O novo luxo é ter paz de espírito, consciência
tranquila, meditar e sentir aquela felicidade que nasce dentro de você, não
importa o que aconteça fora. O novo luxo é saber que para ser feliz temos que
desejar que todos possam ser felizes também.
Até revistas que escrevem para consumidores de alta renda propõem a questão: O que estamos valorizando em nossas vidas? E,
como idosos, qual a nossa competência? Precisamos, sim, questionar os valores
que nos moveram até o presente momento e avaliá-los frente ao que gostaríamos
de deixar como legado às próximas gerações disseminando as informações o máximo
que pudermos, pois não há tempo a perder.
Temos uma missão muito grande e
sagrada pela frente. Como seres humanos, pessoas críticas, que podem mudar o
destino do mundo e como idosos, que adquiriram sabedoria e buscam atingir a espiritualidade.
Muito interessante. Mas o que fazer quando não se tem nada? Depender dos filhos e ter ainda de trabalhar?
ResponderExcluirAnônimo, grata por sua presença e participação. Seu questionamento é incrível e muito justo . Esse é um dilema pelo qual todos, mais cedo ou mais tarde, devemos passar. A resposta é de cunho pessoal e, para tanto, precisamos rever nossos valores identificando os que criamos para nós e os que assumimos porque outros diziam que assim deveria ser. Creio que a velhice nos favorece, mais do que as outras fases, a termos dúvidas, a questionarmos aquilo que, de fato, queremos deixar para nossos filhos e netos em termos de valores. Trabalhar é um valor. Ficar em casa lendo o jornal e vendo televisão é um valor. Ajudar o próximo a se superar é um valor. Certamente, se você se sentar para fazer uma listagem dos seus valores, há de encontrar alguns que você adotou por pura ingenuidade, por preciosismo ou para continuar frequentando o mesmo grupo. Temos os idosos, pouco tempo para refletir sobre isso tudo e decidirmos sobre o mundo que gostaríamos de deixar para as próximas gerações. Afinal, chegamos até aqui. E podemos começar nos perguntando: Ser ou ter? Esta é a questão. Um abraço.
ExcluirOi vamos viver o hoje da melhor forma.
ResponderExcluirLembrar do passado com as boas lembranças.
Anônimo, é isso mesmo: lembrar o passado com as boas lembranças e projetar o futuro de forma a deixar boas lembranças e exemplos dignos para os que ainda envelhecerão. Um abraço. Seja bem vindo.
ResponderExcluirMalú, este é um dos fatos mais preocupantes. Com a maioria dos idosos tentando sobreviver com uma irrisória aposentadoria, dependentes de seus familiares e, quando possível, trabalhando obrigatoriamente em uma atividade que não leva em consideração a experiência, vivência e formação, o que os jovens vislumbram de seu próprio futuro? Nadar, nadar e nadar e...morrer na praia!!! Os idosos são exemplos do futuro dos jovens, mas é este futuro que querem? Certamente nao é. Entretanto, comecamos a ver aquele
ResponderExcluircírculo vicioso: estudar para conseguir um diploma, trabalhar em areas que não gostam (mas foi a oportunidade de emprego que tiveram), ficar sonhando com a aposentadoria para ter tempo para aproveitar a vida (para a maioria, pura ilusão). Os maturescentes precisam lutar para reverter essa situação e ajudar os jovens a tomarem atitudes que concretize o futuro desejável e que sintam-se realizados diariamente e não somente quando se aposentar. Parabéns, Malu
José Clemente Méo, grata por sua participação.Suas observações me parecem corretas. Estamos, mesmo, vivendo momentos de muita incerteza em relação a um futuro que, já sabemos, não tem muito a oferecer. Creio que nossa geração e, principalmente, aquelas que nos sucederam se acostumaram a associar à essência do ser ao ter, como disse Erich Fromm. Precisamos considerar que o futuro tem muito mais a ver com o respeito à natureza, com formas de simplificar a vida, não dependendo tanto das aparências. E, enquanto temos tempo, precisamos transmitir esses valores aos mais jovens. Um grande abraço.
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