A vida reserva inúmeras situações
que acabam servindo como reforço àquilo que conhecemos de significativo ou como
oportunidades de experimentarmos novas e importantes aprendizagens. Quem se
dedica a cuidar de outras pessoas sabe bem do que estou dizendo.
Um dos riscos que se corre ao
cuidar de idosos é desconsiderar o percurso de vida, a maturidade,
inteligência, independência e sentimentos que essa pessoa possui. Um familiar
adoece e precisa de ajuda, por qualquer razão você se dispõe a colaborar. E já,
desde o início dessa relação, você constata que essa tarefa não será nada fácil,
pois essa pessoa apresenta uma fragilidade, uma irritabilidade, um humor, uma
apatia – só para citar alguns exemplos – desconhecidos por você. Suas lembranças
em relação a ela não coincidem em nada com a pessoa que aguarda sua ajuda.
Como lidar com tal situação? Respeitando
o modo como ela se apresenta no momento para obter
sua confiança. Somente assim ela poderá sentir segurança para se entregar aos seus cuidados. Durante quatro anos cuidei de duas tias, irmãs de minha mãe, que pediram ajuda por estarem muito doentes e sem condições de cuidarem de si mesmas.
sua confiança. Somente assim ela poderá sentir segurança para se entregar aos seus cuidados. Durante quatro anos cuidei de duas tias, irmãs de minha mãe, que pediram ajuda por estarem muito doentes e sem condições de cuidarem de si mesmas.
Para assumir tal compromisso
assumi duas posturas técnicas:
1. Precisava que
elas confiassem plenamente em mim e, para isso retomei o princípio do respeito à
importância atribuída ao que era
combinado entre mim e a outra pessoa, não importando que esta fosse uma
criança, um adolescente, um adulto, um idoso, um pequeno grupo ou uma multidão.
Independentemente do acordo feito sabíamos, ambas as partes, que havíamos
discutido possibilidades, esgotado nossos argumentos e, depois, decidido juntas
a melhor solução. Com isso, crescíamos todas, não somente em conhecimentos,
como também na confiança mútua!
2. Precisava
também, que minhas tias soubessem que a chance de eu não entender seus
movimentos, suas dores, seus sentimentos era muito alta e que um jeito de me
ajudarem a cuidar delas era não se irritando com minhas possíveis falhas, mas chamando
minha atenção para como, no entender delas, eu poderia agir. Lembro-me de lhes dizer ser muito importante que
elas tivessem paciência comigo, pois, na
maior parte do tempo, a dificuldade seria minha e não delas.
Não posso dizer que esse tempo tenha
sido fácil para alguma de nós; afinal, elas se encontravam alteradas em sua
saúde e bem estar. Sabíamos que tudo o que combinávamos
aconteceria se, antes, tivéssemos conversado e chegado a novos encaminhamentos,
assim como, por vezes, eu as lembrava de que a dificuldade não era delas e sim,
minha.
Esses cuidados desencadeavam
possibilidades para que falássemos sobre nossas competências e limites, nossas
esperanças e frustrações, que ríssemos de algumas ideias e desejos e
chorássemos juntas a tristeza de já não podermos fazer tanto quanto gostaríamos
de ter feito. Sobretudo nos igualávamos, porque juntas aprendíamos e
ensinávamos, numa troca autêntica e verdadeira. E, em razão dessas trocas, passamos
a nos respeitar cada vez mais.
Assim, as duas irmãs conhecidas por
serem inseparáveis e que desde a minha meninice no meu imaginário se confundiam
como sendo, vivendo e apresentando uma única realidade, começaram a se individualizar
e a assumir uma identidade pessoal na relação que construíamos. Tive a oportunidade
de conhecê-las mais particularmente e perceber a delicadeza de seus
sentimentos, a profundidade de suas elaborações e ideias, a sutileza de suas
percepções, sua inteligência, sua resistência física e emocional, seus temores,
seus sonhos. E, quantos sonhos havia!
Só o fato de conversarmos a
respeito desses sonhos as fazia sentirem-se melhores e mais felizes. Havia um
caminho ainda a ser trilhado, desafios a serem vencidos, vitórias a serem
comemoradas já que, na imaginação, tudo pode acontecer... e acontece. Como
sobrinha, algumas vezes fui obediente às condições que elas ditavam, ainda que,
agora, sendo alguém que cuida.
Essas duas condições passaram a
constituir as linhas mestras, fundamentais em minha prática pessoal e
profissional. Palavra dada, vida
empenhada e a necessidade de me igualar à outra pessoa para garantir um
diálogo aberto, profundo, verdadeiro.
Olá! Seu blog está a cada semana mais gostos de ler e cada vez mais útil. Parabéns e muito obrigado.
ResponderExcluirDonadio, M obrigada por seu comentário e participação. É muito importante saber como as pessoas reagem ao que dizemos. Isso nos dá um chão! Um grande abraço.
ExcluirPerfeito!
ResponderExcluirQuem te conhece, sabe quão ética e não invasiva vc é, respeitando a todos. Vc se coloca no lugar do outro, sempre - e isso a torna uma pessoa sempre muito especial. Beeeem, sou suspeito... :)
CNavarro, fico feliz com sua avaliação. Você fez parte dessas aprendizagens todas que me permiti adquirir. Sei que, de sua parte, você também aprendeu muito e muito me ensinou. Sigamos em frente, meu irmão, porque há muito ainda a ser vivido! Bjs
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirMalu, que prazer aprender com você. Tenho orgulho da nossa amizade e de nossos diálogos sinceros. Você com sua voz doce que acalma, ensina e tranquiliza. Tenho certeza, que as pessoas que acessarem seu blog, farão dele um constante consultor. Obrigada por compartilhar conhecimentos!
ResponderExcluirMayre Vigna, nos acompanhamos há tanto tempo! Grata por sua amizade! Grata, também, por seu comentário, seu incentivo e presença aqui. Espero, mesmo, que este blog possa ajudar muita gente. Mas, amiga, essa ajuda só poderá acontecer se as postagens puderem remeter os leitores a manterem um constante diálogo sobre os assuntos aqui tratados. Espero que este espaço seja visto como uma possibilidade de trocas de experiências e conhecimentos sobre o universo das pessoas idosas para, assim, garantir maior qualidade de vida a esse período de vida. Beijos!
ExcluirMuito bom seu artigo cuidar bem dos nossos idosos hoje e perceber o quanto vamos precisar de alguem que possa cuidar de nós em um futuro próximo sabemos que nem sempre é assim mas trabalhamos com esse intuito
ResponderExcluirObrigada por seu comentário, Anônimo! Tornar as pessoas conscientes a respeito de seu futuro é uma das propostas deste blog. Torná-las responsáveis por construir esse futuro da melhor forma que puderem, envolvendo não apenas os idosos, mas pessoas das mais diversas idades, é um objetivo nosso. Seja bem vindo!
ResponderExcluirMalú, você tocou em um ponto importantíssimo, mas esquecido ou não praticado por milhões de pessoas no mundo: respeito!!!
ResponderExcluirParabéns por mais este artigo.
Abraços.
José Clemente
Grata por sua participação, José Clemente Méo! Pois é,às vezes o cuidador, profissional ou informal, fica tão alterado com essa função, que acaba desconsiderando a condição real que o idoso apresenta e o trata como se este fosse uma criança mimada. É bem penosa essa situação para os dois lados: para quem recebe os cuidados e para o próprio cuidador. Bjs
ExcluirBoa noite Malu estou encantada com seu blog parabéns tenho muito que aprender com vc
ResponderExcluirBoa noite, seja muito bem vinda!Grata por seu comentário e incentivo. Espero corresponder às suas expectativas. Meu desejo é que, a partir das postagens possamos desenvolver diálogos entre todos nós, afinal, todos estamos envelhecendo, todos temos, pelo menos, um parente idoso e todos queremos viver muito. Então, nada melhor do que conversarmos, questionarmos, dizermos o que pensamos e sabemos. Aí, sim, estarmos todos aprendendo e ensinando.
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