As experiências que vivi com elas foram únicas; tão distintas uma das outras quanto diferentes são as pessoas. Três irmãs com quem convivi toda a vida, mas que só vim a conhecê-las mais efetivamente quando me dispus a ajudá-las em sua velhice.
Os cuidados com a saúde de mamãe ocorreram após o falecimento de meu pai. Acompanhar sua velhice, retribuir-lhe a dedicação de uma vida era algo natural, todo o tempo esperado e eu me preparara para ele.
Minhas tias representaram desafios nunca imaginados. Elas “invadiram” minha vida após a morte de minha mãe, sem que eu me apercebesse ou, sequer me preparasse e, por isso cabem perfeitamente na mensagem que desejo passar.
Minhas tias, por serem solteiras, tiveram uma vida bastante diferente de minha mãe. Moraram com seus pais e deles cuidaram quando idosos. Após o falecimento de meus avós, as duas, já aposentadas, mudaram para uma cidade no litoral de São Paulo e ali viveram por mais de trinta anos. Totalmente independentes, tinham seu círculo de amigos, faziam trabalhos voluntários, viviam bronzeadas pelo sol; durante muitos anos recebiam os sobrinhos e sobrinhos netos que iam visitá-las e passar as férias escolares na praia.
Houve um momento em que ambas necessitaram de cuidados médicos especializados. Retornaram para São Paulo, moraram sozinhas e solicitavam nossa ajuda apenas para acompanhá-las às consultas.
Com o passar do tempo foram se tornando bastante frágeis. Pela amizade e carinho que sentia por elas acabei cuidando de ambas e assumindo a responsabilidade de preservar sua saúde física e mental. Dois anos depois, com 84 anos, a mais nova faleceu.
Foi nessa época que resolvi levar minha outra tia para morar em minha casa. Esse foi um processo lento e sofrido, acredito muito mais para mim, pois não queria forçá-la a fazer nada que pudesse prejudicá-la.
Passei três meses me organizando e organizando a casa para recebê-la, assim como criando coragem para lhe fazer o convite. Finalmente, essa tia concordou em morar comigo, com meu irmão e com nosso cachorro a quem ela também acolheu como se fosse alguém da família.
Tudo indicava que ela viveria conosco até o final de sua vida, já que cada movimento que fazíamos vinha carregado de muito afeto, respeito e cuidado. Tomamos todas as medidas possíveis para tornar sua estada conosco confortável e prazerosa. Queríamos que ela se sentisse bem com nossa presença e nossa companhia. Durante quase um ano foi isso o que ocorreu.
Tenho certeza que a ausência e a saudade da irmã mais nova foram aos poucos minando sua alegria e vontade de viver. Ela começou a ficar inapetente e irritada com tudo e com todos. Seu humor começou a variar; chamávamos alguns dias de “Dia do Sim”, quando ela se mostrava dócil e com boa vontade, e outros de “Dia do Não”, quando ficava inquieta e nervosa. Retomamos as consultas médicas no intuito de entender o que se passava com ela.
Nessas consultas fui surpreendida com o conselho unânime dos médicos para colocá-la em uma casa de repouso. Resisti o máximo que pude a essa ideia, pois não conseguia imaginá-la saindo do conforto de nossa casa e de toda a atenção que a ela dispensávamos para ficar em meio a pessoas estranhas, longe de nossa presença, sozinha, perdida nesse novo ambiente.
Embora tristes, começamos a procurar uma casa de repouso onde ela pudesse ficar bem. Elegemos uma que, entre outras possibilidades, oferecia atividades variadas durante a semana, condição imprescindível para nos conformarmos com sua permanência numa casa de repouso.
Eu a visitava com frequência e sempre a encontrava bem, com a higiene feita, arrumada, agasalhada nos dias frios, bem alimentada, participando das atividades propostas, conversando com as cuidadoras e com outros hóspedes e, para minha surpresa, defendendo o seu espaço de alguém mais irrequieto ou invasivo. Em resumo, apresentando mais autonomia do que quando morou em nossa casa. Conversávamos sobre tudo o que ela fazia e, de minha parte, a atualizava a respeito de nossos afazeres, compromissos, alegrias. Ela permaneceu naquela casa até falecer aos 88 anos de idade.
Por que estou relatando tudo isso? Porque, graças a ela, aprendi uma grande lição: tudo começa pelo amor; porém o amor sozinho não é suficiente para se chegar à melhor solução. Temos que entender nossos limites e buscar ajuda de pessoas especializadas.
Foi muito difícil, para mim, fazer o encaminhamento correto àquele caso. O receio de contribuir para que a saúde de minha tia piorasse me acompanhou durante bom tempo. Contei com a ajuda dos médicos que a acompanhavam, que ouviam meus temores e que me fizeram entender que sozinhos, não poderíamos oferecer à minha tia a autonomia e as relações sociais que ela necessitava.
Aos poucos, fui percebendo que ela estava melhor em um lugar onde poderia conviver com outras pessoas, conversar livremente com elas, participar de atividades diversificadas e, sobretudo eleger seus momentos de silêncio, de tristeza e alegria.
Acompanhei minha tia o quanto me foi possível e passei a entendê-la melhor e a admirá-la. Retirá-la de onde ela morava e, tempos depois, levá-la para uma casa de repouso talvez, tenha sido uma das maiores provas de amor que eu pude lhe oferecer!
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Muito obrigada!
Malu, seu artigo fez meu coração saltar de alegria. Que presente sua tia recebeu. Definitivamente o amor move a vida em todas as suas dimensões. Gratidão pela partilha. Abraço carinhoso.
ResponderExcluirÉ isso mesmo Malu. Não creio também que existam "receitas" de como se comportar e agir nestas situações. Tanto de nossa parte para com os outros, como também dos outros para conosco. Cada caso, cada trajetória, cada relacionamento, cada familia e cada momento são únicos!! Portanto fique tranquila, pois se foi o amor que te guiou, e ele sempre sera nosso melhor "guia" na vida, ss coisas irão fluir da melhor maneira possível,como foi o caso que vc narrou; aliás também escrito com muito carinho e dedicação, que são as tuas marcas. Parabéns !!
ResponderExcluirAry Filler escreveu o texto acima. Abraços.
ResponderExcluirFico muito feliz por você ter apreciado minha postagem. Só o comentário "... fez meu coração saltar de alegria", garante que o objetivo que tracei ao pensar em escrever essa trajetória foi alcançado! Grata por sua sensibilidade e carinho. Quero convidar-lhe a continuar frequentando este blog, tornando-se seguidor e "sentindo-se em casa" fazendo comentários, críticas, sugerindo temas. E, se ao publicar seus comentários quiser que seu nome apareça,clique no item "Publicar como: Conta do Google". Beijos.
ExcluirAry Filler, querido amigo, fico muito grata por suas palavras e reflexões. A vida vem me ensinando - creio que não só a mim, mas a todos nós - que sempre, em todas as situações, "cada caso é único" e, se soubermos dar a devida atenção a esse "pormenor", entenderemos que sim, o amor é a mola propulsora de nossas vidas e nossas ações. E, se é ele quem nos move, é nosso "guia",não apenas os resultados dessas ações virão carregados de carinho e bem estar. Quero convidá-lo a continuar frequentando este blog, tornando-se seguidor e "sentindo-se em casa" fazendo comentários, críticas, sugerindo temas. E, se ao publicar seus comentários quiser que seu nome apareça,clique no item "Publicar como: Conta do Google" ou no seu "Nome/URL". Beijos.
ExcluirOieee Malu querida.Entendo vc muito bem
ResponderExcluirA delicadeza desses momentos ,os cuidados,atenção e dedicação movidos pelo amor e reconhecimenso. Cuidei dos meus pais em minha casa nos últimos 10 anos da vida deles.Andei muito pela praia para entender ,apoiar e praticar gestos nascidos na nossa alma.
A Paz de espírito coerente com nosso verdadeiro sentimento de Amor é gratificante.Seu texto tem essa delicadeza.Bjus
Que bom saber que através das postagens, pessoas se identificam com as situações apresentadas e podem trazer um pouco de suas experiências também, pois elas que nos constroem e nos fortalecem. Hoje, revendo tudo o que foi feito, realmente, sinto-me gratificada pela vida que foi e continua sendo minha maior e melhor mestra! Grata por sua participação. Quero convidar-lhe a continuar frequentando este blog, tornando-se seguidor e "sentindo-se em casa" fazendo comentários, críticas, sugerindo temas. E, se ao publicar seus comentários quiser que seu nome apareça,clique no item "Publicar como: Conta do Google" ou no seu "Nome/URL". Beijuuus!!!!
ExcluirMe emocionei ao ler este seu texto, Malu. A gente faz tudo como se fosse a coisa mais natural do mundo mas só de vez em quando conseguimos expressar o quanto nos doeu aceitar que somos falíveis e que muitas vezes prometemos algo impossível a nós mesmos de realizar, pois não somos especializados num assunto tão delicado como cuidar de um idoso em idade avançada - e que seria egoísmo e teimosia se mantivéssemos nosso olhar estreito só na nossa decisão de proteger e amparar. Decidir abrir mão e deixar que outros cuidem de quem amamos é uma grande lição de vida.
ResponderExcluirÉ isso mesmo, CNavarro. Fizemos o que nos foi possível fazer, até "esbarrarmos" nos limites das possibilidades. Fizemos tudo da forma mais coerente e pudemos contar com a presença e os conselhos dos médicos nos momentos decisivos. Eles e você foram fundamentais para que tudo se realizasse da melhor forma para nossas tias. Cada um a seu modo expressou seu amor e garantiu qualidade de vida e dignidade a elas. Grata por seu comentário. Grata por sua presença, incentivo e confiança nessas situações todas que vivemos. Beijos
ExcluirMalu,seu texto é uma reflexão muito importante sobre como demonstrar amor.Obrigado por sua delicadeza e seriedade.
ResponderExcluirGrata por seu comentário e incentivo. Meu objetivo, com este blog é escrever sobre fatos reais, que ocorrem na vida de quem envelhece ou de quem se dispõe a cuidar do idoso, mas sempre de forma amorosa. Situações do cotidiano que às vezes nos machucam, às vezes nos preenchem de alegria e gratidão, às vezes nos questionam, transformando nossas vidas e nosso olhar... Quero convidar-lo a continuar frequentando este blog, tornando-se seguidor e "sentindo-se em casa" fazendo comentários, críticas, sugerindo temas. E, se ao publicar seus comentários quiser que seu nome apareça,clique no item "Publicar como: Conta do Google" ou no seu "Nome/URL".
ExcluirMalu querida
ResponderExcluirvocê é a grande inspiradora de muitos que tiveram diferença em suas vidas, por causa do seu engajamento humano.
Aprendo a cada dia e quero continuar contando com sua doçura e sabedoria singular de vida, o mundo precisa de mais Malus.
Sinta-se abraçada!
Jane Barreto
Jane Barreto, grata por sua presença, por seu comentário, seu abraço e seu incentivo! Há tanto por fazer...! E se pudermos convencer as pessoas de que o envelhecer pode ser uma etapa de vida muito rica por conta de toda experiência acumulada somada ao que ainda iremos aprender, então, minha amiga, terá valido a pena ter vivido algumas certezas, muitas dúvidas, inúmeros questionamentos, erros e acertos. Beijos.
ExcluirAprecio muito sua delicadeza e refinamento espiritual. Dedicar amor aos entes queridos idosos por tantos anos e da forma como você fez é a prova de que meus sentimentos são pertinentes. Obrigada por compartilhar com todos nós. Um beijo!
ResponderExcluirSandra,transformar essas experiências em mensagens que posso compartilhar e, de alguma forma, mostrar o que aprendi, poderá ser significativo para alguém que, ao viver momentos semelhantes aos que vivi, poderá fazer suas escolhas com maior conhecimento. Obrigada por seu comentário. Seja bem vinda também como seguidora! Beijos.
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